Bruxaria e Relacionamento Abusivo

Este texto foi originalmente publicado no site http://www.feribrasil.com em 13 de Novembro de 2020

Identificando problemas na Arte

A bruxaria é uma arte perigosa. As histórias sobre as três possibilidades de quando se encosta no poder são tão reais e palpáveis quanto o espinho de uma rosa perfurando a pele. Quando você entra no caminho da Arte sempre há três possibilidades: ou você morre, ou você enlouquece ou, com um pouco de sorte em seu destino, se torna um poeta. Muitas bruxas que vieram antes de nós recitaram incansavelmente os perigos e delícias deste caminho tortuoso, misterioso e iniciático. E o lore continua rolando de lábios para ouvidos, de pele para pele e de toque para toque.

Mas o fato da bruxaria ser uma caminho perigoso não implica que grupos sejam nocivos a sua sanidade mental e emocional, bem como a sua integridade física. Talvez o ar misterioso, estranho e mágico da bruxaria possa atrair todo tipo de gente perniciosa para o nosso meio. A bruxaria é um limiar sombrio, e talvez alguns tentem esconder suas insanidades nesse limiar, mesmo a Arte não tolerando este tipo de coisa. Afinal de contas, a Bruxaria não é uma oferta de liberdade e poder? Ignorar isto é um grande perigo para aqueles que estão iniciando neste caminho e também para aqueles que, por algum motivo, podem estar em garras que sugam a força vital, ao invés de dar mais poder e liberdade para a alma da bruxa.

Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão: Estes são os poderes inatos da bruxa. Por qual motivo alguém de dentro do Caminho iria querer corromper conscientemente estes poderes que são direitos de nascença? Em 2017, após iniciar meu treinamento formal em Feri e também começar a me envolver com a Reclaiming, eu senti a diferença gritante de estar em um local abusivo para estar finalmente em um lugar seguro onde, depois de anos, consegui desenvolver minhas capacidades psíquicas e mágicas em um ambiente seguro para a minha integridade enquanto ser humano. Eu precisava escrever sobre e escrevi de forma desengonçada e apressada o seguinte texto:

Se você pertence a um círculo onde há medo, pressões e manipulações, fuja o mais rápido possível. Se colocam em você um constante medo de ataques psíquicos e mágicos, sinto lhe informar, estão te manipulando. Corra, peça ajuda. Se dizem que os Deuses te obrigam a ficar, saiba, eles mentem. Muita gente desequilibrada entra nos caminhos místicos e usam de um pseudo conhecimento ou pseudo status de sacerdotisa/sacerdote para manipular, controlar e jogar com as pessoas. Te fragilizam, te derrubam e te envolvem numa teia de emoções confusas. Fique atento ao controle dessas pessoas.

Ninguém pode obter sua liberdade, lembre disto.

Se te obrigam ao sexo ou ao toque forçado, saiba que isto não faz parte de um lugar sério, você está sendo vítima de um crime.

Se pseudos mestres prometem conhecimento, se colocam numa posição de que sabem demais e nunca ensinam, saiba, há algo de errado. Provavelmente você estará sendo enganado. Há professores sérios na bruxaria que podem te ensinar sem estas ilusões criadas para manipular.

Há uma grande diferença entre segredo iniciático e falta de transparência. Fique bem atento a isto.

Qualquer tradição séria de Bruxaria, com ou sem hierarquia, anárquica ou centrada, preza pelo bem estar e segurança de seus membros. Qualquer coisa que desrespeite seu corpo e seu bem estar é mais do que um indicativo de perigo, é um indicativo que você deve correr, denunciar e pedir ajuda.

Você não estará sozinho! Não tenha medo de pedir ajuda.

Estejam seguros.

ps: na minha jornada gostaria de ter lido mais avisos como esses, logo o escrevo agora.”

Revisitando este texto/encantamento percebo que há algumas lacunas, pois muitos usam de sua linhagem e seu conhecimento genuíno na bruxaria para explorar, manipular e brincar com a vida humana. Então uma linhagem não é, nunca foi e nunca será garantia de um local seguro. Não só de pseudo sacerdotes que guardam pseudo conhecimentos são feitos os abusos (apesar de haver mais chances de abusos nestas circunstâncias), há muita gente com linhagem comprovada que foi capaz de cometer absurdos. Gente com conhecimento que se aproveita deste poder para alimentar seus próprios demônios.

Outra observação neste texto é, gostaria de dar mais atenção a parte “diferença entre segredo iniciático e falta de transparência.” pois existe uma grande confusão no meio da bruxaria. Estudei com professores que foram muito abertos quanto a magia, quanto a prática e quanto a sua própria ética, mesmo sem em momento algum revelarem os segredos iniciáticos. Abertos e sinceros com suas próprias histórias. Mas o gancho de segredo pode ser usado como justificativa para esconder abusos sexuais, ou abusos mentais ou manter pessoas presas em um local nada saudável. Em alguns momentos os segredos cabem na palma da mão, frente a magnitude do que as pessoas dizem por aí.

Sigilo para Liberdade, por Laura Tempest Zakroff.

Na época deste texto, eu estava tão furioso que queria expor isto. Era uma fúria extática guiada pelos Guardiões e Deuses estranhos que sempre me vigiaram, mas que até então não os tinha encarado. Para minha surpresa, eu recebi uma enxurrada de mensagens: muitas bruxas tinham se identificado. Eu fiquei perplexo, passei dias escutando relatos dos mais bizarros dentro da bruxaria. Abusos sexuais, agressões, manipulações, um culto ao medo, o culto a pseudo guerras mágicas e o constante medo de ataques mágicos… Juramentos com uma procedência um tanto que duvidosa e tradições com as regras mais estapafúrdias para seus membros.

O cenário da bruxaria parecia da seguinte forma para mim: bruxas talentosíssimas espalhadas pelos mais diversos cantos do meu país, que eram muito boas, mas que estava suficientemente machucadas para não quererem nunca mais se envolverem com uma comunidade, um coven, um círculo, um clã ou uma tradição. Foi nesse dia que decidi lutar mais ativamente para criar locais seguros dentro da bruxaria e tentar explicar o máximo possível que os perigos da bruxaria são outros, e não a tendência criminosa de certas pessoas do meio bruxo.

Eu queria escrever mais, eu queria falar mais sobre isto, cheguei a mandar outras mensagens e sempre a resposta era a mesma, histórias estranhas chegavam até mim. Eu escrevia para mim mesmo no passado, o tempo pode ser apenas uma distorção:

Conselhos para bruxas que começaram a jornada ou para quem está começando a entrar no caminho da bruxaria. (Ou o que eu gostaria de ter ouvido quando eu comecei a minha caminhada): A bruxaria pode ser perigosa, mas isto não significa que os grupos precisam ser perigosos a sua integridade física e mental.

Tenha mais de um professor dentro da Arte, fuja de mestres e lembre-se que você é sua maior autoridade espiritual enraizada em sua própria comunidade humana e não-humana.

Ao menos uma vez na vida, tenha um treinamento formal, e se não for possível, procure por livros que tenham algo parecido com um treinamento.

Tenha em mente que há tantas formas de praticar Bruxaria quanto há pessoas no mundo, e tudo bem.

Esteja em locais seguros para Bruxas e crie locais seguros para Bruxas.

Reconheça os locais tóxicos e abusivos, denuncie e se afaste disso.

E lembre-se: qualquer tradição séria irá prezar pelo seu bem estar e segurança.

Confie na sua intuição, honre seus mortos e se alinhe cada dia mais com o seu verdadeiro Self. Isto não é para qualquer um. Viva em êxtase.”

Revisitando este texto eu gostaria de fazer uma observação. Nem sempre as pessoas conseguem denunciar o abusador e afastar-se é uma solução. Em minha jornada, não consegui denunciar meus abusadores, e se fosse hoje eu chamaria a polícia. Mas eu estava envolvido emocionalmente e me afastar completamente foi o que serviu para mim. Com o tempo percebi o quanto foi importante contar minha história para outras bruxas.

Eu queria conversar com outras bruxas, e agora podia fazer isso. Minha liberdade de expressão não estava mais presa a um coven problemático ou a uma tradição abusiva. Eu me lembro do meu primeiro choque de realidade após eu ter saído de uma tradição que mais parecia um daqueles cultos malucos que vemos em seriados americanos. A nível de transparência citarei algumas coisas que envolviam esse culto bizarro:

#o poder estava centralizado em uma única pessoa que jogava os membros uns contra os outros (culminando em algumas situações desagradáveis, até a agressão física), bem como passava pela mão desta única pessoa qualquer decisão que afetasse a dinâmica da tradição (quem permanecia, quem era iniciado, quem tinha privilégios e quem não tinha, quem podia participar de determinados covens, etc.)

#existia retenção de conhecimento (que não existia propriamente dito) e manipulação neste sentido. Em tudo se maquiava uma aura de mistério, apesar de tudo estar disponível para qualquer pesquisador ávido. Sempre havia algo a mais que você não podia saber, algo que não era para você, mas que estava lá. E não estamos falando aqui de segredo iniciático. Você tinha que se manter fiel a abelha rainha para talvez um dia poder provar de um suposto mel.

#existia uma estrutura de poder que minava as bruxas, deixando-as sem possibilidade para crescer. Discordâncias não eram toleradas. Escolher seu próprio caminho? Nunca era uma possibilidade. Qualquer plano de estudar com alguém com conhecimento fora do grupo era completamente minado. (E não estamos falando aqui de treinamentos que exigem dedicação exclusiva por um tempo). Era na realidade uma forma de isolar bruxas de qualquer coisa que pudesse aflorar suas capacidades.

#O constante medo de sempre estar sendo atacado magicamente. Imagine viver constantemente sob ataque de forças obscuras e que todas as outras vertentes e clãs são seus inimigos. Uma forma simples de forçar um espírito de grupo e identidade: ter inimigos em comum. Sem o grupo você estaria em perigo: se não fosse por causa dos outros seria pelo próprio grupo que você “traiu”. Inclusive, a palavra traição é uma das coisas favoritas de pessoas abusivas, qualquer um que se levante contra abusos é visto como um completo traidor. Deuses, espíritos, oráculos eram envolvidos na teia de manipulação. Havia emissários dos “Deuses”. Você nunca poderia tirar suas próprias considerações sem ser agredido pelo grupo, que era treinado para se comportar assim. Muitas pessoas viraram inimigas sem ao mesmo terem motivos para isto.

#Agressão física era justificada como influências espirituais ao invés de responsabilizar agressores. Acho que esta é a parte mais pesada dessa história toda. Em dezembro de 2016, depois de uma grande bomba relógio ser armada por uma liderança que exercia manipulações e pressões, eu sofri uma agressão física.

#O uso de feitiços sobre os membros como justificativa de forçar uma harmonia também servia como uma tentativa de dizer: quem não segue as regras por vontade própria terá que segui-las à força, pois feitiços serão feitos.

#Juramentos que envolviam x ou y pessoa ser respeitada acima de qualquer coisa davam o tom sombrio ao culto ainda mais bizarro que estava a minha frente.

Labirinto da Rosa

 Mas agora, vamos retornar ao meu choque de realidade. Me lembro de duas coisas que me abalaram de forma surpreendente. A primeira vez foi uma simples pergunta que eu fiz para minha primeira professora de Feri. Ela foi completamente aberta e eu senti que ela falava sobre conhecimento. Era o que ela realmente fazia, e ela não estava usando aquilo para dizer que era maior que eu, ou que eu estava preso a ela, muito pelo contrário, o objetivo parecia mais “eu vejo e faço desta forma e quero que bruxas sejam tão capazes quanto eu”. Outro fato que me desmoronou foi no dia que discordei de uma visão muito específica e a resposta que recebi foi “maravilha, faça deste jeito, pois faz sentido apesar de eu ir para um lado oposto”. Me lembro até hoje de uma famosa frase dela que era “se você não gosta do lore, crie o seu próprio”. Que VeeDub seja lembrada.

Talvez se eu não tivesse coragem de romper com o grupo problemático, eu jamais teria desabrochado como bruxa, e isto de forma alguma foi algo tranquilo. Foi doloroso, foi como abrir uma ferida com pus para limpar. Envolveu dor e choro. Se eu não desse a chance de pessoas qualificadas e que prezavam pelo meu bem estar me ensinarem, talvez eu não teria experimentado as delícias do mel e do fogo. Ou a visceralidade da vida, ou talvez eu nem tivesse me entregado com tanta ênfase ao mundo dos espíritos. Não teria conhecido a encruzilhada, os espíritos tutelares da minha tradição ou até mesmo criado conexões tão incríveis com bruxas locais ou ao redor do mundo. Eu teria entregado meu direito e minha força vital a outra pessoa.

Neste momento do texto gostaria de compartilhar algumas perguntas que podem ajudar na identificação de possíveis problemas:

O local que você encontrou é transparente em seu funcionamento e te passa segurança? As pessoas zelam pelo seu bem estar? Há mestres que querem adulação? Seus professores instigam uma disputa nada saudável entre seus alunos e colegas? A culpa e vergonha são métodos utilizados para o seu “desenvolvimento mágico”? Você conhece a história de seus professores? Ela é clara e verificável na medida do possível? A história de seu professor é rodeada de tragédias, mais do que o normal – por exemplo: problemas com alunos, com grupos, com tradições? Existem situações estranhas que envolvam algum tipo de abuso sexual ou físico?

E agora, talvez a mais importante de todas as perguntas:

Você sente que sua força vital pertence a você ou ela está na mão de outra pessoa? Reflita sobre a sua resposta. Se você não consegue responder esta pergunta significa que há algo errado com o local onde você está.

Lidando com o problema ou quando o afastamento é a solução

Quando estamos com um problema deste tipo na Arte, o primeiro passo é dizer a si mesmo algo como:

“Estou com problemas.”

“Talvez eu tenha me equivocado sobre onde estou.”

“Talvez eu tenha feito uma escolha errada em estar aqui.”

“Eu acreditei em algo e agora não é bem isso.”

“Admirei tal pessoa, mas agora ela parece nociva.”

“O grupo não está funcionando de forma a me levar a um desenvolvimento saudável.”

“Me sinto preso e isto não está funcionando.”

Você pode adicionar qualquer frase aqui, essas frases costumam ser frustrantes e assustadoras, mas fazem a gente começar a entender o que anda rolando.

A minha primeira atitude em perceber que estava em uma situação abusiva foi: tentarei mudar a situação. Mudarei como as coisas funcionam e assim as pessoas mudarão também. Infelizmente nem sempre a coisa funciona dessa forma e a única opção viável é realmente sair e se desvincular completamente do grupo. Grupos tendem a reproduzir sistemas de abuso sem ao menos perceber, é fácil criar um sistema de pirâmide de poder sobre. Alguém te domina, mas você suporta pois também domina alguém e por vezes acredita que um dia chegará ao topo.

Essas redes de abuso são projetadas para serem seguras para apenas um tipo de pessoa: a abusadora. E geralmente as teias são fortes como pedra, e as chances de reverter a situação são pequenas. Inclusive, se um grupo de pessoas que se desliga de um local desses permanece trabalhando junto, elas devem ficar muito atentas, há grandes chances do grupo de reproduzir as mesmas situações e estruturas.

Também há pessoas que se sentem ameaçadas pelo simples fato dos abusadores terem seus contatos “políticos” no meio da “bruxaria”. O medo de represálias realmente é assustador. Uma coisa que tenho para falar é: vocês não estão sozinhos. E lembrem-se: ameaça espiritual é uma forma de desonestidade para manipular e manter as pessoas presas em seus grupos. Ameaça de isolamento no meio mágico é igualmente desonesto e manipulador, não esqueçam disto jamais.

Muitas vezes grupos abusivos se disfarçam dentro do discurso “somos os únicos grupos seguros da região”. Muito cuidado com grupos que alegam verdades únicas ou se auto promovem demais nestes aspectos. Realmente o grupo incentiva as pessoas a serem suas próprias autoridades espirituais ou eles se comportam como uma espécie de culto de escolhidos e únicos verídicos? Fiquem atentos a qualquer centralização de poder, geralmente essas centralizações vem acompanhada de camadas e mais camadas de abusos.

O conselho que dou para pessoas que estejam em uma situação de abuso é, não tenham receio de cortar relações e se afastar. A sua vida não irá acabar com isto, muito pelo contrário, ela pode começar a partir deste start. Geralmente as ligações emocionais estão tão fortes que nos sentimos completamente minados em tomar uma atitude mais agressiva… Mas a bruxaria é selvagem, ela é agressiva, ela é visceral… e podemos usar estes poderes para seguir em frente.

O afastamento é como um encantamento, tecido com coragem e um senso de auto responsabilidade enorme. Para estar livre de um ambiente de alta pressão, onde você é completamente minguado e onde as linhas de Aka que te ligam a situação ou a pessoas são fortes ao drenar sua força vital, o mais aconselhável é o isolamento tanto das situações quanto das pessoas. Para que essas linhas possam secar e não terem mais nenhuma influência sobre ti.

Não tenha medo em abandonar, em virar as costas, a seguir em frente e a dizer não para todos que estejam envolvidas nestas teias, mesmo que isso pareça custar caro. Não há preço que possa comprar a sensação de ser sua própria autoridade espiritual. O número de pessoas que tiveram que passar por isto é muito alto, então você não está sozinha. A princípio você ainda sentirá as pessoas próximas. Com o tempo cada influência vai sendo minada por ti.

Por um breve momento o isolamento e a solidão podem ser uma consequência. Um conselho que dou a todos é: se isolem de situações ou pessoas que sigam os mesmos padrões abusivos que você identificou. E tenham em mente que sempre haverá bruxas que valem a pena manter contato. Mesmo em um caminho dito como solitário, não se isole de outras bruxas, uma rede é algo poderoso e você poderá buscar apoio e colo para pessoas que te apoiem, e que não produzem teias que possam te aprisionar.

Uma coisa que aprendi nestes anos de bruxaria na Tradição Reclaiming é que cada pessoa é sua própria autoridade espiritual. Victor Anderson dizia: “Nunca submeta a sua força vital a nada e nem a ninguém.” Essa frase ecoa de forma profunda no meu ser, bem como tento transmiti-la pelos meus lábios de forma intensa para o maior quantitativo de bruxas. E eu desejo profundamente que os espíritos ajudem para que esta frase vá cada vez mais longe e mais profundo no caminho tortuoso.

Quebrando as correntes na encruzilhada

Você pode querer ajuda de Deuses, Aliados, Companheiros do Fetch (Fetch-mate), Familiares e uma infinidade de espíritos que podem te auxiliar neste momento libertador. Não existe uma receita única para romper grilhões. Você pode ser acolhido por outras bruxas, você pode passar por um profundo rito de passagem ou até mesmo realizar um feitiço. Talvez os próximos tempos após o rompimento você sofra ou até mesmo sinta falta da estrutura das relações abusivas.

Escute o som que vem do selvagem, escute o Fetch e encare seus demônios. Reze e dance, busque por êxtase. Lembre-se que não há parte alguma sua que não faça parte dos Deuses Selvagens. Talvez em algum momento minaram seu poder, mas ninguém pode tirá-lo de você. Sexo, Orgulho, Self, Poder e Paixão são seus direitos de nascença. Você ainda possui forças para se alinhar cada vez mais de acordo com sua própria verdade neste mundo.

Que seu Sexo seja sagrado

Que seu Orgulho retorne

Que seu Self seja reverenciado

Que seu Poder desabroche

Que sua Paixão renasça

Não se esqueça que seus pés são sagrados

E que seus joelhos só se dobrem nos altares sagrados

Que seu sexo se cure das feridas

Que seus peitos sejam ornados com força, beleza e poder

Que seus lábios encantem o mundo

Bruxas

Que seus direitos de nascença brilhem e te protejam

Sexo, Orgulho, Self, Poder, Paixão

Que a vida e o êxtase lhe deem um beijo neste dia

Você é inabalável, seu sangue possui a chama

Que a desesperança seja levada pela foice dos deuses sábios

Que a esperança venha conduzida pelas crianças sagradas

Até o seu círculo, até a sua encruzilhada

Bruxas

Que o Amor vença a intolerância

Que a Lei se sobreponha a violência

Que o Conhecimento destrua as inverdades

Que a Liberdade quebre os grilhões

E que a Sabedoria varra os ignorantes

Que o doce beijo da vida te toque neste momento

Em seu círculo, em sua encruzilhada

Bruxas

Mudem o mundo

Que a escuridão e a luz das estrelas

possam te abraçar neste momento

Estamos todos conectados.

Recomeçando: Entenda que nem tudo está perdido. Você pode recomeçar. Lave suas feridas, cicatrize seus cortes. Tudo bem romper de vez, tudo bem experimentar o mundo novamente. Mas tenha em mente, você pode ser a sua própria autoridade espiritual e jamais entregue sua força vital a ninguém. Se orgulhe de sua cura e jamais romantize seu sofrimento. Qualquer comunidade que se importa com seus membros, com ou sem hierarquia, preza pelo bem estar de cada bruxa presente.

Sempre se questione sobre as relações de poder, principalmente quando elas tentam de alguma forma esmagar a sua liberdade.

Que seus passos sejam abençoados a partir de hoje. Bênçãos Selvagens.

Com Amor, Dio Kahu.

Elementos da Magia: Dançando com o Folclore

“Trabalhando com nosso Folclore, nos enraizamos em nossa terra, e nos chamamos orgulhosamente de Bruxas.”

Elementos da Magia é a tradicionalmente a primeira core class (workshop imersivo tipicamente Reclaiming) oferecida como porta de entrada não só para a Tradição Reclaiming de Bruxaria, mas também para o aprofundamento do entendimento pessoal de magia. Dançando a dança da Bruxaria, abrimos nossa visão e consolidamos o poder de nossa vontade com a Terra, o Ar, o Fogo, a Água e o Espírito.

Com o nosso Folclore brasileiro, podemos trabalhar magicamente com a nossa terra, para que cada vez mais pessoas tenham as ferramentas necessárias para ritualizar enraizados em nosso solo. Através deste processo mágico de conexão com o local onde vivemos, e o reconhecimento de si como uma Bruxa, cada pessoa ganha confiança e entende-se como sua própria autoridade espiritual enraizada em sua comunidade.

Durante as 6 semanas desta core class imersiva, vamos percorrer uma jornada mágica, construindo, praticando e aperfeiçoando saberes distintos como: visualização, sentindo/elevando/direcionado energia, criando espaço sagrado, feitiçaria, estruturando rituais, contato com os espíritos, ativismo mágico, aterramento e centramento, comunicação mágica com a terra, experiência de grupo e comunidade e muito mais.

PRÉ-REQUISITO: 1) Leia os seis primeiros capítulos do livro “A Dança Cósmica das Feiticeiras”, de Starhawk; 2) ter mais de 18 anos.

DATAS E HORÁRIO: 6 terças feiras (aulas semanais), das 19h – 22h, horário de Brasília.

Novembro: 3, 10, 17, 24

Dezembro: 1, 8.

*Pedimos que os participantes se comprometam a participar de todas as aulas ao vivo/online. 

**Todas as aulas serão gravadas.

PLATAFORMA: aulas por videoconferências pelo Skype, fórum para discussão online pelo Discord.

VALOR: R$ 200,00 – R$ 400,00 – R$ 600,00

Escala de preço, onde você escolhe pagar UM dos valores acima, de acordo com a sua disponibilidade financeira. Valores referentes para todas as 6 aulas.

Pagamento será feito via transferência/boleto bancário após inscrição neste formulário.

***Há a possibilidade de parcelamento dos valores e também há algumas vagas para bolsas de estudo e descontos (principalmente para Pessoas Negras, Indígenas e de Cor, LGBTQIA+, Pessoas em Vulnerabilidade Social/Baixa Renda). Ambas as opções estarão disponíveis para escolha no formulário de inscrição.

FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO: https://forms.gle/K7hJSSZYmAz99SRS8

CONTATO: qualquer dúvida ou questão, entre em contato conosco através do e-mail reclaimingtraditionbrasil@gmail.com

****Caso você queira participar de uma Elementos da Magia mas não possa participar nesta turma, envie um e-mail com seu interesse. Te colocaremos na lista de interesse e, dependendo do número de pessoas interessadas, abriremos uma nova turma em outro dia e horário.

PROFESSORAS:

Dio Kahu é Bruxa, iniciado Feri, Coelho da Lua, Praticante de artes ocultas, Tarólogo, Oraculista, Feiticeiro, Aluno e Professor. Envolvido com a Tradição Reclaiming, é um dos idealizadores da comunidade Reclaiming Brasil. Também envolvido com o projeto Nós Somos Aradia, é Sacerdote pela Irmandade de Isis, onde administra o Iseum Quartzo Rosa. Possui envolvimento intenso com práticas mágicas ligadas ao tarô, bem como foco no trabalho mútuo com os espíritos da terra e dedicação ao trabalho de autopossessão diário. Acredita que quando curamos a terra o coração da humanidade é curado simultaneamente.

Lilo Assenci é uma Bruxa queer brasileira, um sacerdote, um Coelho da Lua, tradutor e professor. É iniciado na Tradição Feri de Bruxaria, um dos membros organizadores da comunidade Reclaiming Brasil e também um dos organizadores do projeto Nós Somos Aradia. Sacerdote Hierofante na Irmandade de Isis, onde coordena dois centros para treinamento (Iseum Flor de Afrodite e o Lyceum Caminhos de Hécate). Seu trabalho é profundamente conectado com o anarquismo, bruxaria, comunhão com os espíritos humanos e não humanos, paganismo, folclore brasileiro e ativismo mágico-político. Tecendo magia, cura e ativismo em um trabalho de auto possessão e integração, este é o caminho que ele encontra para encantar os mundos.

Luna Estrela, nascida no Rio de Janeiro, professora, atuante em design gráfico e nas artes como desenho, pintura e dança. Autora com alguns livros e contos publicados, e atualmente envolvida em outros projetos editoriais. Estudante da prática de bruxaria há um pouco mais de 10 anos, com idas e vindas. Comprometida e membro da tradição Reclaiming desde 2017, participando ativamente da comunidade e auxiliando na organização. Também envolvida com magias ligadas à cura, como Reiki, apreciadora da arte do tarô e ativista. Possui interesse em mitologia, folclore e magia ligadas à viagem astral. Acredita que o com a cura e o amor é possível mudar o mundo para um lugar melhor, com mais empatia e inclusividade.

O Labirinto da Rosa

O Labirinto da Rosa é um servidor mágico (constructo/ser elementar criado através de magia que possui um intento específico a ser realizado) com o objetivo de proteger e empoderar as minorias, sejam elas quais forem. Compreendemos como minorias todos os grupos que sofrem sistematica e estruturalmente alguma forma de opressão e dominação por grupos de pessoas privilegiadas em seu mais amplo espectro. Sendo assim, nossas minorias são as mulheres, as pessoas negras, as pessoas LGBTQIA+, pessoas pobres e/ou que vivem em níveis de pobreza, as pessoas indígenas e descendentes dos nossos povos tradicionais, pessoas de religiões pagãs, pessoas com necessidades especiais, etc.

 

Labirinto da Rosa

O Labirinto nasceu no período das eleições de 2018, na Primavera, às vesperas de Beltane, quando enfrentávamos um período conturbado de terror pelo futuro de nossa comunidade. Por isso, alguns membros da Reclaiming Brasil idealizaram o Labirinto da Rosa como um local seguro e protegido, onde poderíamos nos refugiar e reunir, bem como todas as minorias igualmente.

Um Labirinto onde só as minorias podem se encontrar. Um Labirinto onde àqueles que desejam nos machucar se perdem, são expulsos, nunca nos alcançam. Um local seguro onde só nós, as minorias, conseguimos entrar e percorrer. Um lugar onde os fascistas, o preconceito e a intolerância percam suas forças. Uma grande Rosa, cujos espinhos dilaceram o ódio e a violência, rasgando essas energias e transformando-as em força para as minorias.

Sua frase de poder e ativação é:

“Que o fascismo se perca no Labirinto onde as minorias se encontram”

Labirinto da Rosa 4
Foto por Dio Kahu

Por ser um labirinto mágico, esse servidor se contrai e muda de forma. O centro continua sempre com a Rosa, mas seus galhos com espinhos ao redor podem tomar outras formas e extensões. Então, não se preocupem ao desenhar o Labirinto com perfeição como no desenho. Na verdade, sejam criativos (mantendo é claro sempre a forma central: uma Rosa e suas duas folhas).

Quanto mais espalharmos seu símbolo por aí, maior será seu campo de atuação.

  • Para que o Labirinto da Rosa serve?

– Te proteger enquanto você anda na rua, fazendo com que situações de violência movidas pelo ódio às minorias não cheguem perto de você.
– Atuar em lugares como bairros e cidades que possuem manifestações fascistas e de ódio. O servidor atua magicamente rasgando essa energia com seus espinhos e a transforma em força para as minorias.

  • Como ativar e alimentar/fortalecer o Labirinto da Rosa e seu símbolo/sigilo?

A ativação é simples. É só desenhar (ou imprimir) o servidor e espalhar pelos locais. O fato de olhar para o servidor é o suficiente para ativa-lo. Porém, se deseja fortalecer o servidor, algumas coisas são recomendadas:
– A utilização da frase “que o fascismo se perca no Labirinto onde as minorias se encontram” como um mantra.
– A alimentação do servidor com uma vela rosa, vermelha ou preta sobre seu símbolo.
– Você pode recitar a Litania do Labirinto da Rosa enquanto vê seu símbolo ou com a vela acesa sobre ele.
– Oferenda aos Ancestrais que lutaram na mesma luta que lutamos é válido.
– Oferecer uma rosa (flor) ao servidor também é uma ótima escolha. E aqui eu acrescento uma dica: quando as pétalas secarem, é possível fazer um óleo de proteção com a energia do servidor, colocando as pétalas num óleo que você goste (sugiro óleo de semente de uva ou azeite).
– Incenso de flores também é bem vindo.

  • Como utilizar ou encantar o mundo com o poder do Labirinto da Rosa?

– Imprimir ou desenhar o sigilo do Labirinto da Rosa e levá-lo consigo para onde você for.
– Colocá-lo como proteção/fundo de tela de seu celular.
– Você pode desenhá-lo em sua mão com sua energia, soprar força vital para ativá-lo e fortalecê-lo, e lançá-lo em si mesmo ou em quem você deseja proteger, fazendo uma prece curta (“que esta pessoa esteja protegida e volte para casa a salvo…”) e finalizando com a frase de ativação: “que o fascismo se perca no Labirinto onde as minorias se encontram.”
– Espalhar papéis do sigilo por onde passar, ou desenhar por onde passar.
– Recitar a Litania do Labirinto da Rosa, quantas vezes quiser, enquanto tem o símbolo a sua frente. Talvez você queira acender uma vela sobre o símbolo.

Litania do Labirinto da Rosa

Dentro da Floresta escura
Com liberdade, amor e cura
As Bruxas vão para dançar
Com os Espíritos festejar

Onde o Labirinto vive
A Rosa cresce tão sublime
O Estranho e o diferente
Encontram seu lugar solene

Onde o Fogo arde com paixão
Profundo em seu coração
Da Terra surge o nosso canto
De nossas vozes, o encanto

Com o poder da comunidade
Moldamos nossa realidade
Desmantelamos o Sistema
De acordo com a nossa crença

Rachamos todo preconceito
Com o estalar de nossos dedos
Que faz a torre do Fascismo
Cair direto no abismo

E nós, Bruxas da Reclaiming Brasil
Lançamos mais este feitiço
Fascismo, você está perdido
No Labirinto onde estamos vivos.

© escrito por Lilo Assenci, 2019.

Labirinto da Rosa 1
Labirinto da Rosa para fundo/proteção de tela de celular.

Grupo de Estudos e Práticas em Bruxaria

A Comunidade Reclaiming Brasil abre inscrições para um grupo de estudos e práticas em Bruxaria baseado no livro “The Twelve Wild Swans”, das autoras Starhawk e Hillary Valentine. Continuar lendo “Grupo de Estudos e Práticas em Bruxaria”

Feitiço em prol da Amazônia

Um chamado a todas as bruxas do Brasil e do mundo

A Tradição Reclaiming por ter suas raízes no ativismo mágico político convida todas as bruxas interessadas em participar de um ritual coletivo em prol da Amazônia. Que nossa magia possa percorrer nosso país, protegendo a fauna, flora e os povos das regiões afetadas pelo incêndio e pelo desmatamento. Continuar lendo “Feitiço em prol da Amazônia”

Supremacia Branca, Colonialismo, Bruxaria e Pentáculo de Ferro

SUPREMACIA BRANCA, COLONIALISMO, BRUXARIA E PENTÁCULO DE FERRO.
© Gede Parma. Todos os direitos reservados.
Traduzido por Lilo Assenci

Eu posso dizer agora mesmo que não quero escrever estas palavras, mas sou impelido pelos Poderosos Mortos, sou impelido por meus ancestrais, tenho uma obrigação com meus juramentos, para ajudar e defender meus familiares e semelhantes, em várias tradições… E, para além de ajudar e defender minha família bruxa, meus juramentos que me inspiram a trabalhar minha feitiçaria por justiça e cura. Continuar lendo “Supremacia Branca, Colonialismo, Bruxaria e Pentáculo de Ferro”

Tradição Reclaiming de Bruxaria: Nossa História

por M. Macha NightMare, com adições de Vibra Willow, © 1999, 2000

tradução e adições (notas de rodapé) por Lilo Assenci © 2018

A Tradição Reclaiming de Bruxaria[1] americana contemporânea surgiu de um coletivo de trabalho na área da baía de São Francisco, na Califórnia.

Continuar lendo “Tradição Reclaiming de Bruxaria: Nossa História”

Leitura Conjunta – Projeto Nós Somos Aradia

Não sabemos o futuro que o nosso país reserva. É incerto e ameaça ser sombrio… Portanto, precisamos desde já, começarmos a nos salvar. Nos libertarmos da tirania e da opressão. Ser aquele (a) que pratica e estuda magia, ajudando a comunidade ao nosso redor. Precisamos reconhecer o nosso sangue de Bruxa. Continuar lendo “Leitura Conjunta – Projeto Nós Somos Aradia”

Nós Somos Aradia

Sobre o projeto “Nós Somos Aradia”

retirado de www.wearearadia.org, 2017

traduzido por Luiz Carlos Coutinho, 2018

O que é #NósSomosAradia?

Uma chamada à ação para construir e usar suas práticas para proteger e capacitar. Levantem-se. Falem. Enfeiticem orgulhosamente. Continuar lendo “Nós Somos Aradia”

A Palavra “B”, ou porque nos chamamos de Bruxas

A Palavra “B”, ou porque nos chamamos de Bruxas

Por M. Macha NightMare © 1998, 2000.
Traduzido por Lilo Assenci © 2017.

Em uma edição anterior do Reclaiming Quartely¹ , você pode ter lido um artigo de Sam Webster chamado “Por que eu me chamo de pagão?”. Esta é a minha explicação adicional de porque me chamo uma Bruxa e também porque o antigo Reclaiming Collective (RIP) escolheu certa terminologia sobre outra terminologia na elaboração dos Princípios de Unidade da Reclaiming.

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